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Vivendo na Borda: O que a Clínica nos ensina sobre o "Borderline" e a Crise do Simbólico

 Vivendo na Borda: O que a Clínica nos ensina sobre o "Borderline" e a Crise do Simbólico A palavra borderline, uma adaptação já incorporada a nossa linguagem, remete diretamente à ideia de uma "borda". É como se o sujeito vivesse constantemente à beira de um precipício, oscilando entre o abismo e alguma estrutura. Historicamente, a modernidade tentou organizar o sofrimento humano em divisões muito claras: de um lado estava o "normal", aquele que é adaptado à regra, capaz de trabalhar, de amar, de formar vínculos e performar socialmente. Do outro lado, estava o "louco", que fora da realidade e desorganizado, era retirado do convívio social e colocado em manicômios. No entanto, a alma humana possui uma complexidade imensa e não cabe em "caixinhas" ou classificações estanques – da mesma forma que não somos definidos de forma engessada por nossos signos do zodíaco. A vida não é apenas preto no branco, e o diagnóstico borderline nos ajuda ...

Dúvidas sobre o que é, como funciona, quanto tempo e quanto custa o tratamento com um psicanalista


Questionamentos comuns: Não sei se tô pronto para uma terapia. Chegar lá ele(a) vai ficar me analisando? Vou ter que falar coisas que não quero? Vou ter que fazer ou treinar um comportamento, mas se eu não quiser? Não sei nem como funciona isso, como é que é? O que tenho que falar? Quanto tempo vai demorar e quantas vezes eu tenho que ir por semana? É muito caro?(!)


Não tem nada a ver com essas imagens. Um psicanalista nunca irá te analisar com um computador, ou um tablet, ou uma lista de temas de casa a serem feitos. Estar pronto para um processo terapêutico é algo bem importante e extremamente individual. Individual no sentido de alguém dizer que você precisa de uma terapia não é um indicativo. A não ser que mais de uma pessoa insista nessa ideia, talvez você deva considerar. Eu estou aqui porque meu namorado me disse, minha mãe me disse. Ok, são pessoas importantes aos quais você deva dar ouvido, mas é importante que você, acima de tudo, perceba essa necessidade.  Ver texto anterior Hum, acho que tô precisando de uma terapia. Entender o que é estar pronto não é algo tão simples. Um indicativo é você se dar conta que continua se envolvendo em situações ou fazendo coisas repetitivas que atrapalham sua vida, que causam sofrimento. O sofrimento é um personal trainner que não falha.

O terapeuta vai ficar analisando? Sim, mas não é como você imagina. Um bom terapeuta irá conduzir o tratamento de forma que você sinta confiança, não se sinta invadido. Ele terá cuidado no que e como as palavras serão ditas. Também está nas tarefas do terapeuta acolher você e tudo o que você é. O “estar me analisando” de um terapeuta é para perceber como você funciona e não para julgar o que você é. Para que isso ocorra quanto mais você ser você mesmo melhor para o tratamento.

A questão de não saber o que acontece na terapia leva a dúvidas como, vou ter que mudar meu comportamento? Vai mudar quem eu sou? Vou ter que ter uma disciplina para tratar o meu medo de elevadores, de aranhas, de avião, etc? Depende da linha terapêutica que você irá buscar. Em psicanálise não pedimos que você vá fazer esse ou aquele exercício. Na verdade, vai muito além disso. Por exemplo, em relação a medos, fobias, isso revela um sintoma e esse sintoma é algo que deva ser preservado e não retirado. Como assim? Eu tô indo para a terapia porque tenho medo e você não vai tirar esse medo? Não podemos tirar o medo de alguém de uma hora para outra, porque o medo de elevadores irá virar um medo de... formigas, sei lá. Então, para a psicanálise não podemos eliminar esse sintoma porque esse sintoma está, na verdade, revelando que sabiamente você, na história de sua vida, conseguiu sobreviver a algo que foi muito doloroso. Se isso desaparecer de uma hora para outra, não sabemos como seu psiquismo irá reagir. Logo, vamos devagar, ok, um passo de cada vez. Então, voltando a pergunta inicial. Eu vou mudar? Talvez vá mudar em relação a como você enfrenta suas dificuldades, as quais podem gerar sintomas secundários, como a ansiedade, ou outros como depressão. Contudo, a sua essência, quem você é, possivelmente continuará intacto.

Sim, a questão de como funciona uma análise é um ponto de dúvida muito grande que cabe uma postagem à parte. Mas vamos lá, de forma resumida. Na psicanálise a regra é clara. “fale tudo o que vier a cabeça sem censura e sem julgamento”. Esse é o método desenvolvido por Freud lá nos idos de 1889, chamado de associação livre. Qual a finalidade desse método? Você já tentou tirar um uma madeira enterrada no chão, essas de muro de cerca de gado? Então, você não consegue tirar puxando para cima com as mãos. Sabe-se lá quanto tempo ela está nesse local, se o solo é duro ou encharcado, se a madeira vai suportar a pressão, quanto tempo para tirar, se lá embaixo da madeira não tem algo que dificultaria ainda mais puxá-la. Enfim, é necessário começar a balançar de forma devagar. Um pouco de pressão, as vezes mais, outras menos, repetindo alguns movimentos para que, enfim a madeira saia inteira. Se estiver podre ou forçar demais para o lado ela pode acabar quebrando. A associação livre é, guardada a licença poética, ir aos poucos afrouxando as suas resistências de falar, de pensar, de ir ao encontro daquelas partes mais complicadas, as causas do sofrimento.


E falar o quê? Falar primeiramente aquilo que você tem uma certa consciência de incômodo. Todavia, o que realmente te incomoda ou a causa do sofrimento seja uma questão que não tem nada a ver com aquilo que você acha que seja. Buscar aquilo que você nem a causa vai ao encontro do que chamamos em psicanálise de inconsciente, mas isso também cabe algumas postagens a parte. Então, medo, vergonha, culpa, raiva, tristeza por exemplos são emoções e sentimentos que primeiramente nos impedem de falar, mas, com o tempo, são essas mesmas emoções que podem nos libertar. Por meio da fala, bem como de alguém que saiba escutar, é possível você acessar esses núcleos difíceis de serem tocadas.

Tá, mas o que eu tenho que falar? O que você quiser! O que eu quiser? Sim, hoje é sobre o trabalho. Noutra sessão será, sei lá, sobre as árvores do vizinho que soltam pólen e te irritam porque você tem alergia. Noutro momento, sobre a saudade da sua mãe que morreu e você não conseguiu dizer muitas coisas para ela. Mais tarde, já com algum tempo de terapia, talvez você consiga falar sobre seus desejos, o desejo de fazer coisas que para os outros são estranhas, mas para você são excitantes. E por aí vai. O que você irá falar nas sessões são questões suas. Um psicanalista nunca terá uma lista de coisas a serem faladas, de temas de casa ou de comportamentos que você deva fazer. O palco é seu, a palavra é sua. Entenda que o que você fala e como você fala é importante. Já pensou, ter um lugar no qual você fale de tudo sem ser julgado. Tá, mas isso funciona, é só isso então? Concordo, parece tão simples e mesmo fácil. Pois não é, que tal iniciar para você ver como é? Pense agora em coisas que são mais sensíveis, você consegue falar sobre isso? Cada um tem o seu jeito, o seu tempo de falar. Quando se está chegando em "limites” é sinal que estamos entrando, enfim, em terapia, porque as associações livres começaram a fluir e você parou de fazer rodeios e ir direto ao ponto.

Quanto tempo e qual o valor? Então, o tempo é o de um caminho longo para chegar em algum lugar que você não sabe qual é, e muito menos o Psicanalista. Pensando nessa ideia de um caminho a ser percorrido, você caminha rápido ou devagar? Se caminhar rápido demais, poderá adquirir bolhar nos pés, então terá que parar para fazer um curativo e caminhar mais devagar, possivelmente. Se caminhar devagar demais, vai durar mais tempo. 


Talvez você tenha esse tempo e não esteja com pressa. Se caminhar consistentemente e com coragem para caminhar no escuro, força para subir o morro e descer escadas com muitos degraus, parar para retirar o peso da mochila deixando só o essencial, você, talvez, chegará mais rápido. Então, pode durar 2 anos, 3 anos ou muito mais. Tem pessoas que fazem análise já há 10, 12 anos e continuam porque querem continuar.

Qual o valor? Depende muito do profissional, da cidade em que você vive, de quantas sessões você fará por semana (quanto mais melhor), se você irá pagar por mês ou por sessão, se você fará um pacote, etc. Para a psicanálise, estime um valor mínimo (médio) entre R$ 150,00/ R$ 200,00 por sessão, mas pode chegar a R$ 400,00. Existe uma tabela de preços que o Conselho Federal de Psicologia utiliza como referência para Psicólogos. Atualmente, os valores estão entre R$ 213,93 até R$ 366,76. Psicanalistas, em sua maioria, não fazem uso dela mas são valores para você ter uma ideia do seu investimento. Então, faça os cálculos: 4 sessões de R$ 200,00 serão R$ 800,00 por mês. Entretanto, você deve negociar com o seu terapeuta, a maioria negocia seus preços. 

Ah, e outra sugestão, se você conseguir fazer pelo menos 2 vezes por semana será ótimo. Por fim, há diversos núcleos de apoio em universidades e grupos de formação de psicanalistas que fazem o trabalho de clínica social sendo os preços mais acessíveis, porque são voltados a um público com menos poder aquisitivo.



Ah, mais uma coisa ainda, há diferenças sim no tratamento entre um psicólogo e um psicanalista, mas isso é assunto para um outro post.

Então, bora iniciar?

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