Vivendo na Borda: O que a Clínica nos ensina sobre o "Borderline" e a Crise do Simbólico
A palavra borderline, uma adaptação já incorporada a nossa linguagem, remete diretamente à ideia de uma "borda". É como se o sujeito vivesse constantemente à beira de um precipício, oscilando entre o abismo e alguma estrutura.
Historicamente, a modernidade tentou organizar o sofrimento humano em divisões muito claras: de um lado estava o "normal", aquele que é adaptado à regra, capaz de trabalhar, de amar, de formar vínculos e performar socialmente. Do outro lado, estava o "louco", que fora da realidade e desorganizado, era retirado do convívio social e colocado em manicômios. No entanto, a alma humana possui uma complexidade imensa e não cabe em "caixinhas" ou classificações estanques – da mesma forma que não somos definidos de forma engessada por nossos signos do zodíaco.
A vida não é apenas preto no
branco, e o diagnóstico borderline nos ajuda a entender as filigranas desse
espaço intermediário. Trata-se de um funcionamento no qual o sujeito transita
num espaço do "entre", sem estar totalmente na neurose adaptada, nem
na psicose desconectado. Termos mais técnicos do linguajar psi (neurose e
psicose), que de certa forma cause confusões quanto a sua conceituação, está no
conhecimento público.
Neurose como comportamentos e defesas do psiquismo dentro de uma normalidade, no sentido de não ser algo “grave” que impeça o indivíduo de viver em sociedade dentro de regras estabelecidas, medicado ou não. Por exemplo, compulsividade, depressão, medos, etc. Já a psicose, seriam condições mais severas pelas quais viver em sociedade geralmente implica no consumo de medicamentos para uma vida social saudável (esquizofrenia) e segura, bem como talvez um isolamento forçado, dado que algumas patologias implicam no rompimento do pacto social (psicopatias).
O Desmoronamento: Como um Castelo de Cartas
Na experiência clínica, o sujeito que vive nessa borda pode apresentar um funcionamento perfeitamente adaptado por um tempo: produzindo trabalhos, ganhando dinheiro e estabelecendo relações de qualidade. Porém, de repente, parece que todo o enquadre se perde e a vida se desmancha como um castelo de cartas ao vento.
Há uma dissolução abrupta do sentido das coisas. O indivíduo pode acordar e sentir que não quer mais o próprio casamento, a carreira que construiu, ou simplesmente perde a força para levantar da cama, como se as amarras e as bases que o sustentavam sumissem no ar.
A Angústia diante do Salto Simbólico
Mas o que engatilha esse desmoronamento? Ele ocorre, muito frequentemente, no exato momento em que a pessoa está prestes a firmar um compromisso e dar um "salto simbólico". Pode ser a assinatura de um papel de casamento, uma formatura na faculdade ou uma promoção que lhe daria um título e um lugar bem definido no mundo.
Como o sujeito carece de alicerces internos bem fixados, esse marco simbólico entra como um vazio ou um peso insuportável. Ao invés de trazer segurança, a nova posição gera uma angústia terrível. A pessoa sente que tudo é aleatório, pode desenvolver a síndrome do impostor passando a acreditar que as coisas são permeadas por uma falsidade generalizada. Fica-se preso numa ambivalência contínua, uma hesitação permanente.
Um Sintoma da Nossa Época
É fundamental compreender que essa instabilidade na borda não é apenas um adoecimento individual ou resultado apenas da falta de uma ancoragem familiar (como a ausência de um modelo parental sólido). O fenômeno borderline espelha a nossa cultura contemporânea.
Vivemos uma era de identidades digitais forjadas, de cultura narcísica e, principalmente, de uma profunda crise do simbólico e dos lugares sociais que antes eram garantidos. Um reflexo claro disso é a atual crise das masculinidades. Diante da falta de um desenho claro sobre o que é ser homem no século XXI, vemos a formação de coletivos que tentam recriar essas bordas de maneira heroica, buscando retiros espirituais, a s u b i d a de montanha, para tentar forjar um contorno num mundo sem referências.
No fim, um objetivo da psicanálise, na atualidade, diante desse e s t ilha ç a m e n t o das posições simbólicas é descobrir como manter o próprio eixo no meio de uma cultura em profunda transformação.



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