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Vivendo na Borda: O que a Clínica nos ensina sobre o "Borderline" e a Crise do Simbólico

 Vivendo na Borda: O que a Clínica nos ensina sobre o "Borderline" e a Crise do Simbólico A palavra borderline, uma adaptação já incorporada a nossa linguagem, remete diretamente à ideia de uma "borda". É como se o sujeito vivesse constantemente à beira de um precipício, oscilando entre o abismo e alguma estrutura. Historicamente, a modernidade tentou organizar o sofrimento humano em divisões muito claras: de um lado estava o "normal", aquele que é adaptado à regra, capaz de trabalhar, de amar, de formar vínculos e performar socialmente. Do outro lado, estava o "louco", que fora da realidade e desorganizado, era retirado do convívio social e colocado em manicômios. No entanto, a alma humana possui uma complexidade imensa e não cabe em "caixinhas" ou classificações estanques – da mesma forma que não somos definidos de forma engessada por nossos signos do zodíaco. A vida não é apenas preto no branco, e o diagnóstico borderline nos ajuda ...

Hum, acho que tô precisando de uma terapia

O estranho que nos habita

Você está num bar falando com um amigo de um problema íntimo e se dá conta que está contando algo íntimo pela primeira vez, o que lhe traz algumas reflexões durante e depois dessa conversa. Numa outra situação, retornando da empresa, faculdade ou colégio, chega em casa triste, arrasado na verdade, porque acabou de ter uma briga feia com seu namorada(o). O mundo parece que vai acabar. Num terceiro cenário hipotético, você está com uma amiga (duas amigas conversando) e você se dá conta que já é não é a primeira vez, talvez seja a quarta, que o assunto é o mesmo, só relacionamento com homens violentos.

Bom, vamos por parte. Estar num bar falando coisas íntimas para um amigo é algo comum, mas se dar conta que é algo íntimo, você estaria precisando, no mínimo, colocar para fora alguma coisa incômoda. Embalado pela cerveja, pela música e pela companhia, algo que já o incomodava saiu para fora como num impulso, quase como um vômito... saiu meio atravessado, mas saiu. Indicaria que pelo menos você precisava falar para alguém e não estava muito clara essa necessidade para você mesmo. Por algum motivo houve uma sensação de confiança e algo aconteceu. Confiança é, com certeza, uma peça fundamental no processo terapêutico, seja qual tratamento for, seja psicologia, psiquiatria, terapias alternativas e também a psicanálise. 

Não sabe as diferenças entre elas? Não se preocupe, continue acompanhando o blog. Voltando ao exemplo acima, não seria esse um motivo suficiente o qual indicaria que você está precisando de terapia. Talvez isso nem tenha passado pela tua cabeça até então. Está precisando, no senso comum, desabafar, colocar para fora algo que está na periferia de si mesmo. Bastou um empurrãozinho para sair de qualquer jeito e saiu. Você está mais leve, feliz por te falado algo, mesmo que, incômodo para si mesmo. Percebeu que ao falar aquilo para o seu amigo foi muito bom. É importante esclarecer que embora tenha sido muito bom e reconfortante ter alguém que tenha lhe dado ouvidos, não necessariamente tenha escutado, não podemos classificar isso como terapia. Teve um efeito terapêutico, mas não é uma   t e r a p i a. No fundo, possivelmente, foi um anestésico necessário e útil.

 Então você teve uma briga com o seu namorado(a) e o mundo parece que vai acabar, porque dessa vez a briga foi feia. Você sente que aquilo que você tem e que chama de companhia, de parceria, algo que parecia precioso desapareceu de uma hora para outra. Como podia ele(a) ter feito aquilo? O ódio pulsa nos olhos, no peito, no corpo. Por momentos, parece que você vai entrar em colapso. Para piorar, com o tempo passando, em horas, dias, as coisas parecem perder o sentido. Aquelas músicas de "dor de cotovelo", aquelas que você nunca ouviu, passam a fazer muito sentido e você as escuta uma atrás da outra. Sem saber, busca algo como resposta, alguém que explique o que você está sentindo, algum eco no fim do túnel. Não sabe se o choro é de raiva ou de tristeza. 

As vezes até fica alegre, porque lembra daquele cara que te deu bola outro dia, ou daquela linda garota que tinha te procurado dias atrás. A(o) “ex” parece um caminho natural porque ele te conhece melhor do que ninguém. A vontade de se vingar parece fazer sentido. A necessidade de mostrar-se mais forte ou, de outro lado, a vítima que você está tentando não ser, insiste em ser.  Sim, essa situação é bem mais dura que a primeira. Parece indicar que uma terapia fará muito sentido afinal é um sofrimento tão grande que beira o insuportável. Mas, olha, ainda não é suficiente para que você busque uma terapia. Longe disso, aliás, terapia é a última coisa que geralmente pensamos nessas dolorosas, demoradas e sofridas situações. O que queremos é resolver aquela angústia, seja de que forma for, com vingança, com "tapa de luva", ignorando, enfim cada um elabora a sua estratégia de tentativa de superação.

Já na última situação é bem provável que você esteja pronto(a) para iniciar uma terapia. Quando começamos a nos dar conta que há situações repetitivas, que causam sofrimentos e estão atrapalhando nossa vida pessoal e profissional é o momento de começar a elaborar a ideia de buscar uma terapia.  Relacionamentos repetitivos com pessoas violentas coloca a sua vida em risco, bem como daqueles que você ama como filhos, pais, irmãos, Pets e por aí vai. Outros exemplos:

  1. Percebi que quando brigo com a minha namorada, na verdade eu não escuto, principalmente quando ela começa a falar em dinheiro. Mas sabe, só agora eu notei que na verdade eu sempre fiz isso. E o pior, pensando bem, eu fazia a mesma coisa com as outras namoradas. Por que nessas horas de brigas eu paro de escutar? 
  2. Percebi que me envolvo com pessoas que me humilham. Já tive 10 relacionamentos e todos ficam me humilhando. Mas eu não percebia isso, que no fundo, parece que eu quero em sentir humilhada. Mas aí eles cansam né! Por que eu faço isso?
  3. Eu tenho atração por árvores, preciso estar perto árvores. No fundo, sabe o que é, me dei conta que, na verdade eu fico excitado, preciso desse contato. Só que agora eu não tô sabendo lidar com isso. Eu quero continuar, mas como sustentar isso?

Enfim, em todas essas situações o elemento em comum é o se dar conta que dentro de si há um outro habitando, o qual lhe escapa o controle. Como se algo estranho dentro de si mesmo tem uma vida própria.



Esse é ponto de virada, é o daquela expressão “Hum, acho que tô precisando de uma terapia!”  

E qual terapia se hoje há tantas?

Bom, nesse caso sugiro análise com um p s i c a n a l i s t a. Vai lá, afrouxe o cinto e deite-se no divã, de preferência presencialmente. É possível on-line também, mas  ao vivo e a cores é bem diferente e pode ser melhor em muitos casos.

Mas por que Psicanálise? Bom, continue acompanhando o blog que talvez isso fique mais claro com o tempo.



Comentários

  1. Muito interessante os temas abordados neste material. São situações nas quais todos passam em algum momento da vida. E como é bom poder contar com a ajuda de um profissional sério e competente para nos orientar.

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  2. Olá Ronaldo. Obrigado pelo comentário. Sim, são situações que escutamos na clínica de como cada um percebe a sua primeira vez, ou a sua necessidade de iniciar uma terapia.

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