A psicanálise parte de um princípio teórico das causas da a n s i e d a d e por um viés diferente. A do funcionamento do que Freud elaborou sobre o conceito de INCONSCIENTE. Esse conceito já existia, na filosofia principalmente, mas ele foi além. Em resumo, as crises de ansiedade, na qual o sujeito sente sintomas terríveis, são motivadas por uma interpretação de algo ameaçador, uma ameaça a vida. Porém, você não percebe, você não enxerga nada que ameace a sua vida. O que te deixa mais confuso! Por que estou sentindo tudo isso? E o pior, teus amigos e familiares visivelmente acham que é frescura, porque quando você vai parar no hospital não te dão nenhum diagnóstico, pressão normal, oxigenação normal, etc. Quem nunca passou por isso, não tem noção do que você está sentindo!
Mas vamos lá, porque a psicanálise interpreta a ansiedade de forma diferente da neurociência, da psiquiatria e mesmo da psicologia em relação ao tratamento. A psicanálise é uma tríade composta por bases bem sólidas:
- Conteúdo teórico bem generoso, uma metateoria desde Freud, Klein, Ferenczi, Lacan, Winnicott, Bion, Green, Bollas e tantos outros que continuam colaborando com a sustentação, discussão e a manutenção da produção de conteúdo. Aliás, recentemente, foi colocada em dúvida se é ciência ou não ;
- A clínica, a qual podemos chamar da parte prática da psicanálise, acompanhadas ou não de supervisão. Na clínica colocamos em prática o que aprendemos na formação (6 – 8 anos). O que não podemos, ou ao menos não devemos, estar distante de toda teoria já mencionada.
- Não menos importante as discussões, grupos de estudo, apresentação de trabalhos, congressos de diferentes linhas de atuação.
Enfim, não se faz psicanálise,
sem a teoria vinculada a prática. Contudo, um bom psicanalista não irá parar de
se manter atualizado, inclusive nas diferentes vertentes de sua formação. A
formação de um psicanalista é um conteúdo à parte, aguarde novas postagens.
A hipótese que Freud sugeriu lá
no século passado é até simples, principalmente se aceitarmos uma condição fundamental,
a do inconsciente. Dito de uma outra forma, há algo dentro de você que funciona
sem o seu controle, algo que em você habita, que não só você não percebe, como
também insiste em se mostrar a você e que você continua não percebendo. “Mas
Fábio, eu sou consciente de tudo o que eu faço, dos meus pensamentos, das
minhas ações, eu dirijo minha vida e minha vontade!” Olha, a gente compreende
que isso já é outra coisa, menos a de que você acha o que é, de que você é consciente
de tudo o que faz.
Para dar um exemplo, me lembro
que quando estava na sala de cirurgia para o nascimento do meu primeiro filho quase
desmaiei. Tive de sentar as pressas na única cadeira que estava disponível. A
equipe médica parou e me perguntou se eu estava bem. Respondi que fiquei tonto
de uma hora para outra. Prontamente o médico, com as luvas cheias de sangue, pressionando
a barriga da minha esposa a fim de forçar meu filho para baixo, disse “É bom tu
sentar, que se tu caíres não poderemos fazer nada! Nossa atenção é com o teu
filho e a tua esposa agora”.
Há determinadas situações em que
alguma situação de PERIGO, de uma ameaça sobre a sua vida, retorna de forma
súbita e seu corpo irá reagir conforme uma ameaça. Você é capturado por
sintomas que lhe são estranhos e não pediram permissão para você, você é tomado(a)
por sensações as quais você não tem controle algum. A ansiedade acentuada, essa
que a psiquiatria precisa qualificar como transtorno, é quando o medo rapta seu
psiquismo de uma forma brutal. Você não sabe a origem, não sabe de onde surge,
não sabe o porquê, o que te deixa mais confuso ainda. “Por que estou assim? Não
aconteceu nada diferente. Eu estava bem e de uma hora para outra isso acontece.”
No caso do meu desmaio, eu não tive uma crise de ansiedade, mas tive uma reação
a uma situação na qual eu achei que estava tudo bem, que eu tinha controle
sobre o que estava acontecendo, comigo ao menos. Mas eu estava vendo o que
estava acontecendo, diferente das crises, nas quais não temos um objeto visível
que justifique tudo o que estamos sentindo.
O exemplo foi para ilustrar que no
campo do que chamados de psiquismo, Freud chamou de aparelho psíquico, a parte
inconsciente percebe coisas (objetos) como palavras, cheiros, sensações,
músicas, cores, pessoas, ambientes, etc. que você não vincula no instante com
algo que tenha a ver com você e muito menos interpretados como um perigo. Provavelmente,
na maioria das vezes, é sobre algo que já aconteceu. Por ser tão ameaçador foi
recalcado, colocado de lado, em algum lugar dentro de você. É de um perigo a sua
vida, mas que não é visível, você não percebe com os seus olhos. Se você estivesse
vendo o perigo, um perigo a sua vida, você entenderia todos os sintomas (taquicardia,
medo, sudorese, imobilização, etc.) e os suportaria na medida do possível.
Compreenderia que tudo o que você sentiu tem a ver com o perigo que você acabou
de passar. Nas crises de ansiedade você não vê o perigo real, mas o teu inconsciente
o percebeu de alguma maneira, pelo cheiro, pelo audição, pela visão, etc.
Escuto agora, enquanto escrevo,
Caetano. “Fala que me ama só que é da boca para fora, ou você me engana, ou
está não está madura... onde está você agora?” Então, quanta ansiedade em
poucas palavras poderiam ser invocadas, ou convocadas, para um inconsciente
sempre em alerta: a da falsidade que fala da boca para fora; a da boca que
vomita palavras sem sentido; a daquela verborragia sem um significado; a de ser
enganado a vida inteira; a de se sentir um engano naquilo que você faz; a de
que qualquer um está sempre te enganando; o não se sentir maduro; o de apontar
o dedo para a falta de maturidade; o onde está você agora então, sugere mais
ainda a ansiedade de uma nostalgia daquilo que podia ter sido (nesse caso um
estado deprimido).
Bom, e por aí vai, o que quero
dizer é que uma simples música pode ser uma “armadilha” que pode, sem você
perceber, raptar o seu psiquismo e te deixar a beira de um colapso, em plena
crise de ansiedade. E você vai cair num ambulatório e fazer exames, disso e
daquele outro, e vão de te dizer que você não tem nada. O que vai te deixar
aliviado num primeiro momento, mas continuar elaborando, ou melhor, preocupado,
“... como assim eu não tenho nada? E tudo o que eu senti, foi coisa da minha cabeça?
Não quero mais sentir isso”.
Para Freud, e até hoje, o tratamento da ansiedade em Psicanálise é possível sim, e ela tende a sumir assim como apareceu. Você perceberá que ela vai d e s a p a r e c e n d o. Você irá conviver consigo mesmo, as crises irão diminuir, as vezes você vai voltar a sentir de novo, porém mais fraca, ou talvez não, não há como garantir o tempo de desaparecimento e de total expulsão do que você sentia. Mas vai saber lidar de outra forma, de forma mais madura. Se você ainda tá sentindo, mesmo em tratamento, é bem provável que há coisas que não estão sendo levadas para o teu divã. Sexualidade, desejos reprimidos, morte, enfim, questões que lhe são mais sensíveis podem ser uma pista do que possa estar acontecendo. Lembre-se, para a psicanálise a c u r a é p e l a f a l a. Você precisa começar a falar sobre essas questões mais delicada, na medida do possível, respeitando a si mesmo sem dúvida. É necessário começar a desbravar essa(s) parte(s) que ainda é difícil, para você sobretudo, de ser abordada. Coragem!
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