Para a psicanálise, a neurose obsessiva não é apenas uma coleção de manias ou rituais, mas uma complexa fortaleza psíquica erguida para defender o sujeito contra o excesso pulsional e o horror à exposição do próprio desejo. Quando o sujeito atinge a maturidade (a faixa dos 50 anos ou mais), essa estrutura frequentemente entra em uma crise silenciosa, mas avassaladora. Com a chegada da aposentadoria, a diminuição das demandas familiares ou o encerramento de longos ciclos profissionais, cai o principal álibi da neurose: a rotina hiperativa. É nesse momento que o sujeito se descobre "estacionado" . 1. O "Estacionamento Psíquico" e a Roda de Hamster Na juventude e na vida adulta jovem, o neurótico obsessivo costuma canalizar seu funcionamento para uma produtividade rígida e perfeccionista. O trabalho contínuo serve como uma tela de proteção que justifica o adiamento da vida erótica, do lazer e das escolhas autênticas. Contudo, ao ultrapassar os 50 anos, a interrup...
Vivendo na Borda: O que a Clínica nos ensina sobre o "Borderline" e a Crise do Simbólico A palavra borderline, uma adaptação já incorporada a nossa linguagem, remete diretamente à ideia de uma "borda". É como se o sujeito vivesse constantemente à beira de um precipício, oscilando entre o abismo e alguma estrutura. Historicamente, a modernidade tentou organizar o sofrimento humano em divisões muito claras: de um lado estava o "normal", aquele que é adaptado à regra, capaz de trabalhar, de amar, de formar vínculos e performar socialmente. Do outro lado, estava o "louco", que fora da realidade e desorganizado, era retirado do convívio social e colocado em manicômios. No entanto, a alma humana possui uma complexidade imensa e não cabe em "caixinhas" ou classificações estanques – da mesma forma que não somos definidos de forma engessada por nossos signos do zodíaco. A vida não é apenas preto no branco, e o diagnóstico borderline nos ajuda ...